sexta-feira, 23 de setembro de 2011
O Libanês Louco e o Amor.
No momento lendo dois livros: Os Sertões, de Euclides da Cunha, e O Profeta, de Khalil Gibran.
Venho falar sobre o segundo.
Ele apresenta pequenos sermões sobre temas que fazem parte do nosso dia-a-dia, desde amor e dor até casamento e trabalho, foi escrito em 1923.
Não é um livro de auto-ajuda, ele seria mais uma explanação religiosa / filosófica, com trechos contundente sobre temas que muitas vezes consideramos batidos, apresentando novos pontos de vista. Apresenta quase que uma síntese das três grandes religiões monoteístas (Islamismo, Cristianismo e Judaísmo) com a tradição contemplativa e paradoxal do Oriente, como Hinduísmo e Budismo. A impressão que dá é que ele manjava muito dessas religiões e resolveu escrever aquilo que prestava de cada uma delas nesse em forma de ensinamento do 'Profeta', que não tem nome.
Hoje vou escrever sobre a primeira coisa que pediram que ele falasse antes de partir da cidade na qual se encontrava: o Amor.
"E quando ele vos falar, acreditai nele,
Embora sua voz possa despedaçar vossos sonhos como o vento do norte devasta o jardim.
Pois ainda que o amor vos possa coroar, ele também vos pode crucificar. Ainda que seja para o vosso crescimento, também contribui para podar-vos (...).
Mas se, por receio desejais buscar somente a paz e o gozo do amor,
É melhor cobrirdes a vossa nudez, e abandonardes a eira do amor,
Para que possais entrar no mundo sem estações, onde podereis rir, mas não todo o vosso riso, e chorar, mas não todo o vosso pranto.
O amor dá de si apenas, e nada recebe senão de si próprio.
O amor não possui nem quer ser possuído;
Pois o amor ao amor se basta."
Ou seja: Enfie as caras. Não fique se podando e tentando controlar seus sentimentos quando sabe que não conseguirá. Não para sempre, e não sem algo para mascarar o que se sente. Vá, de boa fé, sem esperar nada, pois existe a chance de não conseguir nada. Simplesmente faça o que tem vontade, o que aquilo que existe dentro de você mandar.
Ou você pode ficar na sua, sem se entregar. Mas não haverá Amor na sua vida. Não haverá Paixão.
Digo isso não no sentido de relacionamentos homem e mulher apenas, mas em tudo. O amor ás coisas que te deixam maior, que te fazem sentir útil, o amor as coisas que te dão prazer, aquilo que você faz por amor, pura e simplesmente sem esperar nada em troca, pois o ato de se entregar e fazer o que gosta já são suficiente recompensa.
O prazer em se fazer aquilo que se ama, é a própria recompensa.
Entre as passagens citadas, existem algumas linhas que expõem uma finalidade para o amor, e para o sofrimento decorrente do mesmo:
"Qual feixe de milho, acolhe-vos em seu seio.
Ele vos debulha a fim de expor vossa nudez.
Eles vos destitui da palha com seu crivo.
Ele vos tritura até atingirdes a brancura.
Ele vos amassa té que estejais prontos:
E então vos submete ao seu fogo sagrado, para que vos transformeis no puríssimo pão do banquete divino.
Todas essas coisas o amor fará por vós a fim de que vos torneis sabedores dos segredos de vossos corações, e que imbuídos desse saber, vos transformeis num fragmento do coração da vida."
Eis aqui um arquétipo presente em todos os mitos e em todas as sociedade: sofrimento e bem-aventurança.
Quantos heróis da mitologia existem que, antes de terem atingido o máximo de sua capacidade, antes de serem se tornado verdadeiros heróis, antes de serem os ícones de suas sociedade e história não passaram pelos piores sofrimentos?
Hércules teve os trabalhos. Homero, meu deus do céu... só se lascou na até conseguir voltar pra casa. Buda até atingir a iluminação quase morreu de fome tentando meditar com o mínimo de comida possível, Jesus quase arregou no Getstêmani, mas abraçou a cruz de bom grado, e ressuscitou ao terceiro dia, segundo o mito. E mais recentemente, Gandhi, que não precisa de explicações.
Todos esses exemplos mostram pessoas (ou mitos, que de qualquer forma nos vale a lição) que foram "debulhadas, amassadas" até atingirem a plenitude, a recompensa. Pessoas que passaram pela escola da vida sem se ressentir com o mundo, sem frescuras de como o mundo deveria ser, nem esperando um outro mundo que melhoraria suas vidas.
Eles venceram o mundo, como o mundo é. Aqui e agora.
Viveram seu Amor, e suas Paixões no limite de sua capacidade, e isso não é um mar de rosas (a Paixão de Cristo é o episódio mais sangrento do Novo Testamento).
Logo depois tiveram recompensas descritas como maiores do que todas as alegrias mundanas podem trazer. Descobriram o "segredos de vossos corações".
E pra que isso?
Ouso dar minha resposta:
Por que é isto o que que todos procuramos. A auto-realização completa, o auto-conhecimento que leva ao acalmar de nossa ânsia de e nossas necessidades espirituais.
Afinal, como diz Joseph Campbel, em O Poder do Mito:
"Dizem que todos buscamos um sentido para a vida. Não acho que estejamos realmente buscando isso.
Acho que buscamos a experiência de nos sentirmos vivos de tal forma que nossas experiências tenham ressonâncias internas no mais profundo do nosso ser e da nossa realidade. E assim chegamos a sentir realmente o êxtase de estar vivos.
No fundo a questão é essa".
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