A Khan Academy tem como objetivo fornecer educação de padrão internacional, grátis, para a maior quantidade possível de pessoas. Um sonho que antes de sua realização parecia impossível mas que depois de sua fundação e ascensão se mostra, ainda que longe de atingir suas metas quantitativas, perfeitamente possível.
Minha experiência com essa instituição teve início quando, após o improvável fato de eu ser aprovado da UFABC se tornar realidade, fui fazer o curso de inserção universitária da citada instituição. Nesse curso eles mostram os principais recursos da universidade e, algo que me interessava muito, o que seria cobrado em Bases Matemáticas: o terror dos bichos (e de alguns veteranos também). As outras matérias eram humanas, com as quais eu não teria tanta dificuldade, então me concentrei no ponto crítico, a matemática.
Depois de fazer o curso, comecei a fazer um levantamento do que eu precisava para começar a revisar as matéria que deveriam ser dominadas antes do quadrimestre começar. Primeira dificuldade: achar um esquema que mostre a progressão lógica da matemática, o que você deve saber primeiro, e o que vem depois disso, e o que precisa ser dominado para se estudar um determinado assunto. Fiz isso de um jeito meia-boca, e quando comecei a estudar parei no problema que atinge a maioria das pessoas: não sabia coisas básicas como MMC, MDC, multiplicação de frações, expoentes negativos, e o pior de tudo, quando tudo isso aparece na mesma questão.
Procurei em alguns livros o que precisava para dominar os conceitos num tempo hábil e sem passar por coisas que não usaria nos conteúdos cobrados, pois não haveria tempo. Mas ainda assim faltava um cronograma, um esquema organizacional onde estivesse claro onde eu estava, onde eu precisaria chegar, e qual o caminho certo. Lembrei que um professor no cursinho havia falado a respeito dessa tal Khan Academy, porém havia dito que os vídeos eram em inglês, o que me afastou dela até aquele momento. Mas, já que eu estava travado mesmo e sem previsão de quando eu desencalharia resolvi verificar. Qual não foi minha surpresa ao verificar que eu entendi as aulas de Salman (o cara que fundou a Khan Academy) na lígua de Tio Sam? Bom, já era um excelente começo. Vi como funcionava os exercícios que mostravam se você havia dominado o assunto ou não e também o Knowledge map, um mapa em forma de constelação que mostra os assuntos dominados e sugere assunto novos para se estudar. Era o que eu precisava.
Percebi o quão importante esse recurso estava sendo para mim, quanto tempo me poupou, quanta autonomia me dava, quantas desculpas destruía e resolvi verificar mais. Pesquisei na internet e descobri que Salman Khan tinha um livro falando sobre suas idéias e sobre a Khan Academy. Mais ou menos uns dois dias depois me deparei com o livro no lugar onde eu trabalho (é uma livraria, não foi um milagre, talvez um fenômeno de sincronicidade). Dei um jeito e arranjei o livro, o segundo livro que li este ano que realmente me acrescentaram algo (o primeiro é Olhai os Lírios do Campo, de Érico Veríssimo. Houve um tempo senhores, em que livros como esse eram best-sellers.).
Um livro simples, fácil de ler e, respeitáveis e restritos leitores desse espaço, se existem, permito-me dizer revolucionário. Sim, um livro que quebra paradigmas educacionais, propões idéias, arranja soluções, mostra problemas e também a limitações em resolvê-los, mas nunca se abatendo, sempre passando a mensagem e mostrando o quanto é possível fazer com esperteza e boa vontade.
Faltam recursos para brasileiros que não dominam um pouco de inglês, mas algumas iniciativas surgem para disseminar essa ferramenta como a Fundação Lemann que firmou uma parceria para tradução das aulas de matemática.
Surge em mim, uma esperança autêntica de que com essa ferramente haverá mudanças significativas no Brasil, a médio e longo prazo. Qualquer pessoa com um mínimo de seriedade e conhecimento cultural geral sabe que o maior problema do Brasil é a educação e depois de ler o livro de Salman vi como é possível evoluir a educação em um tempo menor do que se convencionava. Medidas como bolsa família, maior policiamento e parceria com a iniciativa privada para a criação de mais empregos atacam os sintomas mas não a doença brasileira, que é a burrice e a ignorância, a falta de educação, no sentido ético e acadêmico.
Ninguém quer ou gosta de ser burro, ignorante, e saber o quanto sua vida é limitada por isso. Como diz no livro educação não é questão de "índices de aprendizado nem de resultado de provas. Trata-se do significado de tudo isso para a vida das pessoas. Trata-se de potencial realizado ou desperdiçado, dignidade viabilizada ou negada."*
*Khan, Salman. Um mundo, uma Escola. A educação Reinventada. Rio de Janeiro, Intrínseca, 2013.
